O que o ajuste de –R$ 1,1 bi revela sobre controles, incentivos e auditoria – e como isso muda preço em M&A
O ajuste de –R$ 1,1 bilhão em estoque expôs controle fraco, cronograma de inventário falho e incentivos tortos. Quando bônus premia crescimento e margem “no papel”, a contabilidade parece correta até o dia em que o físico desmente. A saída passa por rotina, métrica e incentivos alinhados a acurácia e caixa.
O que aconteceu (e como o mercado reagiu)
O Grupo Mateus comunicou erro no cálculo do custo médio e a consequente redução de R$ 1,1 bilhão nos estoques. Em poucos dias, as ações recuaram fortemente e a companhia divulgou medidas de “fortalecimento de governança”. A conferência ao mercado foi confusa, com pouca cronologia e a frase clássica “não há efeito de caixa” — tecnicamente verdade no reconhecimento, mas incompleta quando se considera a reposição de estoques e o impacto em crédito e confiança.
Tradução sem jargão: o que estava no sistema não batia com o que existia no chão de loja/depósito. Quando o físico ganhou voz, o papel precisou admitir a diferença.

Onde os controles falharam
Inventário
- Intervalo irregular (lojas sem contagem por longos períodos).
- Amostragem insuficiente e pouco foco em categorias de alto risco.
- Falta de Kardex/trilha de movimentação robusta e reconciliações periódicas.
Operação de loja/PDV
- Troca de código (item caro passado como barato) e perdas/furto sem indicador e dono do plano.
- Integração frágil entre preço, tributos (ICMS/PIS/COFINS) e custo efetivo.
Contabilidade e tributos
- Reconhecimento equivocado de bonificações de fornecedores (timing/critério) e impostos de entrada mal parametrizados — dois campeões de dor no varejo brasileiro.
Governança
- Alertas antigos de deficiências de controle perderam tração; o tema sumiu de documentos posteriores e o ajuste veio tarde
O papel dos incentivos: quando o bônus empurra o erro
Bônus atrelados a abertura de lojas, sell‑in e margem contábil criam ambiente para postergar baixas e empurrar custo. Enquanto a régua premia o resultado “de slide”, a empresa vai acumulando diferenças entre o físico e o contábil.
Como consertar o jogo:
- Parte relevante do variável atrelada à acurácia de estoque (ex.: ≥99,2%) e quebra por categoria.
- Gatilho negativo: se houver ajuste ex‑post material, o bônus reverte.
- Metas de caixa (giro, perdas, recuperação) valem mais do que metas de margem “limpa” sem evidência física.
Auditoria menor x Big Four: importa?
Logo na crise surge a pergunta: “Se fosse Big Four, pegava?” Qualidade depende menos do logotipo e mais de escopo, equipe e ceticismo. Big Four, em média, têm mais recursos/metodologia, mas não são escudo contra falha de controle. Firmas menores podem ter proximidade e custo mais baixo, mas precisam demonstrar independência e teste de substância no chão da operação (inventário, PDV, kardex, reconciliações). A régua correta é: o que foi testado, por quem e com qual profundidade.
Paralelos com outros escândalos no varejo
- Americanas (2023): inconsistências bilionárias (fornecedores, financeiro) — caso de fraude, incentivos tortos e governança frágil.
- Carrefour (2010, BR): questões envolvendo estoque/bonificações; problema antigo do setor quando processo perde de pressa.
Ponto comum: quando estoque vira variável de marketing e bonificação vira “lucro” por decreto, a conta chega com desconto de credibilidade que dura anos.
Due diligence de M&A no varejo (buy-side e sell-side)
Olhar de BUY-SIDE (quem quer comprar)
- Estoque: conciliar 12 meses de inventários físicos por loja; amostras surpresa em categorias A; reconciliação Kardex ↔ fiscal; análise de shrink (perdas/furtos) e plano por gerente.
- Bonificações/fornecedores: políticas, critérios e timing de reconhecimento; teste de substância com notas fiscais/espelhos; concentração de fornecedores e eventuais rebates condicionais.
- Tributos: parametrização de ICMS/PIS/COFINS na entrada; mapas de créditos; histórico de autuações/contencioso.
- PDV/Preço: variações entre preço de gôndola, PDV e cadastro; incidência de troca de código; controles de promoção.
- Governança e incentivos: como o bônus da diretoria/lojas é calculado (margem contábil x acurácia/giro/caixa); existência de gatilho negativo para ajustes posteriores.
- TI/WMS/ERP: logs, trilhas de auditoria, segregação de funções e riscos de manipulação.
Olhar de SELL-SIDE (quem quer vender)
- Rodar vendor DD focada em estoque/bonificações e publicar memorial de cálculo;
- Implantar inventário rotativo e meta de acurácia;
- Ajustar remuneração variável (acurácia/giro/perdas) e prever reversão de bônus em caso de ajustes;
- Data room com: inventários, políticas de bonificação, reconciliações tributárias, contencioso, logs de WMS/ERP e KPI mensal por loja/categoria.
- Narrativa de desconto fechado: quais lacunas foram sanadas, por quem, quando e com qual indicador.
KPIs que evitam desconto eterno
- Acurácia de estoque (%) por categoria/loja.
- Inventário rotativo: % de cobertura/mês + gaps corrigidos.
- Perdas (shrink): % sobre venda e R$ por categoria.
- Tempo de reconciliação físico × contábil (meta: D+1).
- Bonificação: % reconhecida com documento e critério, não estimativa.
- Tributos de entrada: divergências identificadas/corrigidas por período.
FAQ rápido
“Não tem efeito de caixa” é verdade? No ato contábil, sim. Mas repor estoque consome caixa. E a confiança perdida afeta crédito e custo de capital.
Precisa ser Big Four para dar conforto? Não necessariamente. O essencial é escopo inteligente, testes de substância em loja/depósito/PDV e independência.
Como atrelar bônus a acurácia sem travar a operação? Combine metas de acurácia, giro e perdas com zona de tolerância. Se surgir ajuste material, parte do bônus reverte.
Quanto tempo leva para recuperar credibilidade? Meses para estabilizar, trimestres para recuperar múltiplo — se o processo muda e os números provam.
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Respostas de 2
Excellent artigo. Uma verdadeira aula.
E o melhor, completamente desvinculado do modelo Faria Limer.
Parabéns
Parabéns Valverde. Excelente.